Imagine descrever em português o aplicativo que você quer — algo como "um app de lista de compras que separa os itens por corredor do mercado" — e ver uma inteligência artificial montar o código pronto para publicar. Essa forma de criar software ganhou o apelido de vibe coding, e ela já está mexendo com o mercado de apps de um jeito que dá para medir em números.
O que é vibe coding?
Vibe coding é criar programas usando instruções em linguagem natural: você escreve, em texto comum, o que o software deve fazer, sem precisar dominar uma linguagem de programação. Os modelos de IA — os mesmos que estão por trás de assistentes como ChatGPT, Gemini e Claude — se encarregam de traduzir esses pedidos em código. O termo se popularizou em 2025 e, de lá para cá, virou uma categoria de ferramentas por conta própria. O Cursor, uma das plataformas mais usadas do tipo, reúne cerca de 7 milhões de desenvolvedores e já passou de US$ 2 bilhões em receita anualizada.
Os números do boom
O efeito prático dessa facilidade apareceu direto nas lojas de aplicativos — e em uma escala difícil de ignorar.
- Cerca de 560 mil apps foram lançados na App Store, a loja da Apple, só no primeiro semestre de 2026, segundo dados da consultoria Sensor Tower obtidos pelo jornal The New York Times.
- Em 2025, foi preciso o ano inteiro para chegar a aproximadamente 600 mil. Ou seja, o ritmo de novos aplicativos praticamente dobrou.
- A consultoria Appfigures já tinha notado a virada: alta de 80% nos lançamentos da App Store no primeiro trimestre de 2026 na comparação com 2025. Somando a Google Play, o crescimento foi de 60%.
- Para efeito de comparação, os lançamentos na loja da Apple tinham chegado ao fundo do poço em 2022, com 420 mil no ano inteiro.
Mais apps, mas não mais downloads
Aqui está a parte curiosa: ter mais aplicativos disponíveis não fez as pessoas baixarem mais. Segundo a Sensor Tower, o número de downloads cresceu apenas 3% em 2025 (35,4 bilhões) e 2% no primeiro semestre de 2026 (17,6 bilhões). Em outras palavras, a oferta disparou, mas a atenção do público — e o tempo que cada um tem para experimentar novidades — continua o mesmo. É o velho problema de muita coisa competindo pelo mesmo espaço na tela do celular.
O que muda para a Apple (e para quem usa o celular)
Para a Apple, o efeito tem dois lados. A empresa cobra comissões de até 30% sobre compras e assinaturas feitas dentro dos apps, então, em teoria, mais aplicativos poderiam significar mais receita — mas só se as pessoas realmente gastarem neles. E muitos desses lançamentos devem apostar em anúncios, um modelo mais simples de implementar e menos lucrativo para a dona da loja.
Do lado de quem usa o iPhone, o volume de novidades tem um custo. A revisão manual que a Apple faz antes de liberar cada app pode ficar mais lenta, e cresce o risco de aparecerem programas de baixa qualidade, com falhas de segurança ou conteúdo inadequado. Em nota ao New York Times, a Apple afirmou estar animada com a "nova geração de desenvolvedores" e disse que todos seguirão as mesmas exigências de qualidade, privacidade e segurança.
Vale a pena surfar essa onda?
Para quem tem uma ideia parada na gaveta, o vibe coding derruba uma barreira antiga: não saber programar. Dá para tirar um protótipo do papel em poucas horas, testar com amigos e validar se a ideia interessa a alguém antes de investir muito tempo e dinheiro. Mas a facilidade tem limites. O próprio CEO do Cursor já alertou que publicar um produto sem entender o código por trás dele é arriscado — bugs difíceis de rastrear, brechas de segurança e contas de servidor que saem do controle são armadilhas comuns quando ninguém no time sabe o que a IA realmente escreveu.
No fim das contas, o vibe coding funciona menos como um substituto de desenvolvedores e mais como um acelerador: excelente para experimentar e validar ideias, mas ainda dependente de gente experiente para transformar um protótipo em um produto sólido, seguro e que as pessoas queiram usar todo dia. Aqui na Agility, a gente enxerga a IA exatamente assim — uma ferramenta que faz o time andar mais rápido, não uma que dispensa o cuidado com a qualidade.
Fontes: reportagem do The New York Times com dados da consultoria Sensor Tower (nytimes.com); levantamento da Appfigures divulgado pela TechCrunch (techcrunch.com); e cobertura do Tecnoblog sobre o tema (tecnoblog.net).