Ciência & Espaço

Vacina universal contra coronavírus criada com ajuda de IA passa no primeiro teste em humanos

Pesquisadores de Cambridge usaram inteligência artificial para projetar a pEVAC-PS, uma vacina experimental que mira vários coronavírus de uma vez. O primeiro teste em 39 voluntários foi seguro e já encaminha uma nova fase com 200 pessoas.

Equipe Agility3 min de leitura
Cientista de luvas prepara uma dose de vacina sob capela de laboratório

Imagine uma vacina pronta antes mesmo de uma nova pandemia começar — capaz de proteger não só contra o vírus que já conhecemos, mas também contra parentes dele que ainda nem chegaram aos humanos. É exatamente essa a aposta de um grupo de pesquisadores britânicos que, com a ajuda da inteligência artificial, deu um primeiro passo concreto nessa direção.

O que aconteceu

Cientistas da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, anunciaram que uma vacina experimental chamada pEVAC-PS passou pela primeira fase de testes em pessoas. A vacina foi projetada com auxílio de inteligência artificial (IA), tecnologia que aqui funciona como uma espécie de assistente capaz de analisar uma enorme quantidade de dados e enxergar padrões que o olho humano dificilmente encontraria.

A grande sacada é que a pEVAC-PS não foi desenhada para um único inimigo. O alvo são os sarbecovírus, um grupo que inclui o SARS-CoV-1 (causador da epidemia de SARS em 2003), o SARS-CoV-2 (responsável pela Covid-19) e outros vírus que hoje circulam em animais e que, um dia, podem dar o salto para os humanos.

Como a inteligência artificial entrou na história

O trabalho usou uma plataforma chamada DIOSynVax, que aplicou IA para vasculhar a estrutura de vários coronavírus ao mesmo tempo. O foco foi a proteína spike — a 'chave' que o vírus usa para invadir nossas células e a parte que costuma sofrer mais mutações a cada nova variante.

Em vez de mirar os trechos que vivem mudando, a IA procurou as regiões que quase não se alteram, mesmo quando surgem variantes diferentes. A partir desse mapa, o sistema ajudou a montar uma sequência sintética inédita, batizada pelos cientistas de 'superantígeno'. Na prática, é um treino de reconhecimento: a ideia é ensinar o sistema imunológico a identificar os pontos mais estáveis e comuns a vários coronavírus de uma vez.

A abordagem deve nos proteger daquilo que pode causar o próximo surto ou doença.

Jonathan Heeney, líder da pesquisa, à BBC

O que o primeiro teste mostrou

A etapa inicial envolveu 39 voluntários saudáveis, com idades entre 18 e 50 anos. Esse tipo de teste, chamado de fase 1, serve principalmente para responder a uma pergunta: a vacina é segura? A resposta foi positiva — não foram registrados efeitos colaterais significativos.

Além disso, a vacina ativou respostas de defesa contra o SARS-CoV-2, o SARS original e vírus relacionados de origem animal. Os próprios pesquisadores classificaram o efeito inicial como 'modesto', mas o ponto importante é outro: o conceito funcionou. Provar que a ideia tem futuro era justamente o objetivo desta primeira rodada.

  • Vacina: pEVAC-PS, projetada com ajuda de IA pela Universidade de Cambridge
  • Participantes: 39 voluntários saudáveis de 18 a 50 anos
  • Resultado: sem efeitos colaterais relevantes e com resposta imune a vários coronavírus
  • Próximo passo: nova fase com cerca de 200 pessoas, para avaliar a eficácia em um público mais variado

E não para por aí

A mesma plataforma já está sendo usada para desenvolver outras vacinas 'universais', como uma contra a gripe sazonal, uma voltada à gripe aviária (H5N1) e soluções para febres hemorrágicas, incluindo vírus da família do Ebola. Esses estudos, porém, ainda estão em fase de testes em animais — ou seja, mais distantes de chegar às pessoas.

Por que isso importa pra você

A Covid-19 saiu das manchetes, mas o SARS-CoV-2 continua circulando no Brasil e ainda sofre mutações. Uma vacina capaz de proteger contra várias versões do vírus de uma só vez poderia reduzir a necessidade de reformular o imunizante a cada nova variante. E, no caso de uma futura ameaça, ter parte do trabalho pronto com antecedência pode significar ganhar tempo precioso — o tempo que faltou no início da pandemia.

O caso também é um bom exemplo de como a IA vem deixando de ser só assunto de chatbots e assistentes virtuais para atuar nos bastidores da ciência, acelerando descobertas que afetam a saúde de todo mundo. Ainda é cedo para comemorar: faltam novas fases de testes e anos de pesquisa até uma eventual aprovação. Mas é um sinal animador do que a tecnologia pode destravar quando aplicada a problemas reais.

Fontes: Universidade de Cambridge, BBC News, Tecnoblog, CNN Brasil e Gizmodo Brasil.

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